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5 €
PINTIA
CAMPAÑA XXVI
GRAVURAS DEL CÔA
Idade do Ferro
TARIEGO DE CERRATO
CIU
dade
S V
a
CC
ea
S
ORFEBRERÍA VACCEA
ERAS DEL
BOSQUE
e
N
e
L MUS
eo
de
G
ra
N
ada
60
9
VACCEA
ANUARIO
A
as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa
Arte rupestre no limite
ocidental da Meseta
O
Vale
do
Côa
situa-se
no
ex
tre-
mo
ociden
tal
da
Meset
a
Ibérica,
no
in-
terior
nort
e
de
Portug
al,
a
cerc
a
de
20
quilómetr
os
da
fron
teira
com
Espanha.
O
rio
Côa
defin
iu
mesmo
a
fron
teira
entr
e
os
reinos
de
Portug
al
e
de
Leão
e
Cast
ela
at
é
1297,
quando
o
Tr
atado
de
Alcañices
passou
a
fron
teira
para
o
rio
Águeda.
Est
a
realidade
hist
órica
re
flete
o
fact
o
de
o
Baixo
Côa
se
localiz
ar
muito
pró
ximo
do
limite
ocident
al
da
Meset
a
Ibérica,
aqui
definido
pela
grande
falha
geológic
a
que
vai
desde
a
Serra
da
Es-
61
9
VACCEA
ANUARIO
trela
(Portugal)
at
é
Puebla
de
Sanabria
(Espanha).
Imediat
amente
ant
es
do
fim
dest
e
acident
e,
o
rio
Côa
foi
esca
vando
um
vale
profun
do,
com
cerc
a
de
400
metr
os
de
desnível
em
relaç
ão
ao
pla-
nalto
circundan
te
do
final
da
Meset
a,
definindo
assim
uma
barr
eira
na
tural.
Foi
nest
a
região
que
em
1991
começ
ou
a
ser
descobert
o
o
maior
conjun
to
de
arte
paleolítica
ao
ar
livre,
quando
se
cons
truía
aí
uma
barrag
em
hidroelé
trica
que
iria
submergir
todo
o
vale.
A
int
ervenção
dos
portugueses
e
da
comunidade
científic
a
int
ernacional
fe
z
com
que
o
proje
to
fosse
abandona-
do,
e
a
arte
rupestr
e
foi
inscrita
na
List
a
de
Pa
trimónio
Mundial
da
UNESC
O
em
1998.
Mas
se
a
arte
do
Côa
é
conheci-
da
sobre
tudo
por
se
tra
tar
do
mais
im-
port
ante
conjun
to
de
arte
paleolítica
ao
ar
livr
e
do
mundo
,
ela
apresen
ta
outras
fases
artístic
as,
que
chegam
at
é
ao
sé-
culo
XX.
Um
dos
conjun
tos
mais
impor-
tan
tes
é
a
arte
rupestr
e
da
Idade
do
Fe
-
rro,
que
cons
titui
hoje
a
segunda
mais
rele
vante
fase
artístic
a
da
arte
rupestr
e
do
Vale
do
Côa,
identific
ada
em
46
nú-
cleos
de
arte
distin
tos,
num
tot
al
de
455
rochas
gra
vadas
(Reis
2014).
Contudo
,
a
importância
da
arte
paleolítica
será
o
principal
fa
tor
que
lev
a
a
que
se
tra
te
de
uma
arte
em
grande
medida
ainda
desconhecida.
Apesar
dos
av
anços
na
prospeç
ão
e
da
identific
ação
de
nov
os
painéis
e
sítios,
que
têm
vindo
a
ser
pe-
riodic
amente
apresen
tados
(Reis
2012,
2013
e
2014),
do
re
gistro
gr
áfico
de
cinco
dez
enas
de
painéis
gra
vados
e
da
document
ação
fot
ográfica
re
alizada
por
Mário
Reis,
parcialme
nte
disponív
el
na
página
int
ernet
da
Fundação
Côa
Par
que
(http://w
ww.arte-coa.pt),
a
esmagador
a
maioria
dest
as
rochas
con
tinua
inédita.
A
partir
dos
poucos
dados
publicados,
for
am
já
apre
sentadas
algumas
ten
ta-
tivas
de
int
erpretação
dest
as
re
presen-
tações
(Luís
2008,
2009
e
2010),
que
aqui
r
etomamos.
Por
falt
a
de
inv
estigação,
o
nosso
desconhecimen
to
est
ende-se
também
ao
con
texto
regional
da
ocupação
hu-
Localização
da
arte
rupestre
do
Vale
do
Côa
no
limite
ocidental
da
Meseta
Ibérica.
Os
números
corr
esponde
aos
sítios
do
rio
Sabor
,
r
eferidos
no
t
exto
(1.
V
ale
de
Figueir
a;
2.
Cas
telinho;
3.
Cr
estelos).
Localização
dos
v
estígios
de
art
e
rupes
tre
e
ocu
-
pação
humana
da
Idade
do
F
erro
e
R
omanização
no
V
ale
do
Côa.
as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa
62
9
VACCEA
ANUARIO
as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa
mana
con
temporânea
da
arte.
Apesar
disso,
o
pov
oado
fortific
ado
de
altu-
r
a
parece
con
tinuar
a
ser
o
cen
tro
do
pov
oamento,
com
alguns
pov
oados
fortific
ados,
cuja
cronologia
é
ainda
incerta,
localiz
ados
no
cimo
de
rele
-
vos,
nem
sempre
muito
acentuados,
junt
o
a
zonas
agrícolas
e
associados
a
ve
stígios
romanos
localiz
ados
no
sopé
des
tas
elev
ações
(Mont
e
Meão
,
Mont
e
do
Cast
elo,
Cast
elo
dos
Mouros).
Par
a
além
desses
pólos
concen
tradores
de
pov
oamento,
outro
tipo
de
assent
a-
mentos,
mais
ligados
às
tar
efas
quo-
tidianas
e
mais
invisív
eis
arqueologi
-
camente,
car
acterizariam
a
ocupação
regional
(Folhal
2).
Estudos
rece
ntes
a
norte
do
Côa,
no
vale
do
Sabor,
vie-
r
am
compr
ovar
est
a
dualidade
no
po-
v
oamento
regional,
salien
tando-se
a
esca
vação
do
pov
oado
fortific
ado
do
Cast
elinho
(Sant
os
et
al.
2012),
bem
como
em
Cre
stelos,
com
zona
fortific
a-
da,
mais
alta,
e
uma
outra,
localiz
ada
no
sopé,
com
estrutur
as
habitacionais,
post
eriormente
romaniz
adas
(Sastr
e
2014).
Em
ambos
os
sítios,
for
am
iden
-
tificadas
cer
ca
de
500
e
100
placas
gra
-
vadas
com
arte
móv
el,
respe
tivamente,
com
grande
s
semelhanç
as
com
a
arte
rupestr
e
do
Côa.
O
fact
o
de
ter
em
sido
iden
tificadas
em
con
texto
arqueológic
o
torna-se
numa
re
ferência
cronológic
a
fundament
al
para
a
dat
ação
da
arte
do
Côa.
No
Sabor
for
am
ainda
iden
tifica-
dos
painéis
com
arte
rupestr
e
sidéric
a
no
Vale
Figueira
e
junt
o
a
Cre
stelos
(Ne
-
ves
&
Figueiredo
2015).
Tan
to
no
Côa
como
no
Sabor,
desc
onhece-se
qual-
que
r
necr
ópole.
A
arte
rupestr
e
da
Idade
do
Fe
-
rro
do
Vale
do
Côa
rec
orre
ao
mesmo
tipo
de
painéis
ve
rticais
de
xist
o
uti-
liz
ado
pela
res
tante
arte
rupestr
e
do
vale
,
partilhando
mesmo
muitos
deles,
sobre
tudo
com
a
fase
final
da
arte
pa-
le
olítica.
A
arte
do
Ferr
o
localiz
a-se
so-
br
etudo
em
torno
da
con
fluência
do
rio
Côa
com
o
Douro
e
em
ambas
as
mar-
gens
des
te,
para
mont
ante
e
jusant
e,
bem
como
,
em
menor
medida,
para
o
int
erior
cur
so
do
Côa.
P
ara
além
dos
aflor
amentos
ro
-
chosos
de
xist
o,
for
am
ainda
iden
tifi-
cadas
duas
placas
móv
eis
com
motivos
da
Idade
do
Ferr
o,
em
zonas
onde
se
iden
tificam
ve
stígios
arqueológic
os
ro
-
manos
(P
aço
e
Oliv
al
dos
T
elhões).
A
técnic
a
predominan
te
de
re
-
presentação
é
a
gra
vura
com
recur
so
a
instrumen
to
met
álico,
a
julgar
pela
análise
macrosc
ópica
dos
traç
os
gra
va-
dos
com
perfil
em
U,
conjug
ada
com
a
inv
estigação
e
xperimental.
A
for
ça
apli-
c
ada
no
at
o
da
gra
vação,
e
ev
entual-
mente
o
tipo
de
utensílio
empregue,
faz
com
que
est
a
técnic
a
simples
apre
-
sente
grande
s
variaç
ões,
desde
figuras
profundame
nte
gra
vadas,
como
a
placa
do
Paç
o,
at
é
lige
iros
dese
nhos,
que
se
mat
erializam
não
pela
gra
vação
de
um
sulco
na
rocha,
mas
por
uma
lige
ira
ras
-
pagem,
criando
um
con
traste
cromá
ti-
co
entr
e
a
linha
clara
e
a
superfície
mais
escura
do
painel.
As
repr
esentações
da
Idade
do
Ferr
o
do
Vale
do
Côa
surg
em
ger
almen-
te
em
grande
s
sobre
posições
de
moti-
v
os,
mais
ou
menos
org
anizados,
mas
també
m
em
cenas
narra
tivas.
As
figu-
r
as
surg
em
ge
ralmente
de
perfil,
ou,
no
caso
de
algumas
figuras
humanas,
em
per
spetiva
fron
tal,
desc
onhecendo-se,
at
é
ao
momen
to,
qualquer
figura
evi
-
dente
e
m
per
spetiva
z
enital.
Os guerreiros e as armas
Embora
os
quadrúpedes
sejam
numericamen
te
mais
comuns,
a
figu-
r
a
humana
é
cen
tral
na
arte
da
Idade
do
Ferr
o
no
Vale
do
Côa,
pelo
grande
des
taque
que
lhe
é
dado,
pelo
seu
ta
-
manho,
pelas
particularidades
e
det
al-
hes
das
suas
repr
esentações
e
pela
sua
cen
tralidade
no
con
texto
das
cenas
na-
rr
ativas,
onde
figuram
outros
animais
que
se
lhe
subme
tem.
Confluência
do
rio
Côa
com
o
rio
Douro.
A
arte
rupestr
e
localiz
a-se
na
vert
ente
em
fren
te
e
nos
vales
que
afluem
para
o
Douro
(à
direit
a).
Fot
o
José
Paulo
Ruas.
63
9
VACCEA
ANUARIO
as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa
Placa
do
Paço.
Notar
a
diferença
na
profundidade
dos
tr
aços
e
o
perfil
em
U
dos
tr
aços
mais
lar
gos.
Fot
o
Manuel
Almeida.
R
epresentações
humanas
da
art
e
do
V
ale
do
Côa.
(1.
P
aço;
2.
V
ermelhosa
3;
3.
F
oz
do
Côa
95;
4.
V
ermelhosa
3;
5.
V
ale
do
F
orno
6;
6.
Ribeir
a
de
Urr
os
1;
7.
F
oz
do
Côa
93;
8.
V
ermelhosa
3;
9.
V
ale
do
F
orno
6;
10.
V
ale
da
Casa
10;
11.
F
oz
do
Côa
42).
Desenhos
F
ernando
Barbosa.
64
9
VACCEA
ANUARIO
as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa
Estas
figuras
são
sempre
homens
e
guerreir
os.
Se
o
seu
géner
o
é
por
ve
zes
compr
ovado
pela
repr
esentação
do
sex
o,
já
o
seu
est
atuto
de
guerreir
o
lhe
é
con
ferido
pela
associação
a
um
conjun
to
de
armas.
Essa
panóplia
cons
-
ta
sobre
tudo
de
lanças,
ger
almente
com
a
repr
esentação
do
con
to,
e
escudos
circular
es,
repr
esentados
em
perspe
ti-
va
fron
tal,
ou
mais
rar
amente
de
perfil.
Par
a
além
disso,
surg
em
també
m
punhais,
falc
atas
e
mais
rar
amente
espadas.
Al-
guns
guerreir
os
apresen
tam
um
conjun-
t
o
de
linhas
re
ticuladas
sobre
a
região
do
ven
tre,
o
que
suger
e
a
utilizaç
ão
de
uma
espécie
de
cour
aça
que
prot
ege
essa
região.
Noutros
casos,
essas
linhas
res
tringem-se
à
zona
da
cintur
a,
suge
-
rindo
a
utilizaç
ão
de
cintur
ões.
Na
cena
de
duelo
da
rocha
3
da
Vermelhosa,
os
guerreir
os
apresen
tam
ainda
um
con
-
junto
de
linhas
na
zona
das
canelas,
que
dev
erão
corr
esponder
a
cnémides
ou
grebas,
prot
eções
que,
nest
e
caso
,
não
seriam
met
álicas,
mas
cons
tituídas
por
fitas
de
c
ouro.
Esta
panóplia
corr
esponde
qua-
se
na
ínt
egra
à
descrição
de
Estr
abão
(
Geografia
,
III,
3,
6)
do
armament
o
dos
Lusitanos,
embora
se
possa
alarg
ar
a
grande
parte
dos
pov
os
pré-r
omanos
peninsulares.
Da
descrição
do
geógr
a-
fo
clássico
,
apenas
o
capace
te
parece
est
ar
ausent
e,
com
a
ex
ceção
de
dois
casos
duvidosos,
das
rochas
23
do
Vale
da
Casa,
onde
um
simples
traç
o
pode-
rá
suger
ir
um
capace
te
com
pala,
e
10
do
mesmo
sítio,
onde
duas
figuras
des-
armadas
aprese
ntam
a
cabeç
a
cobert
a
por
algo
que
poderia
corr
esponder
a
um
capace
te
de
crist
a
em
perspe
tiva
fron
tal.
Poder-se-ia
ainda
pensar
que
duas
das
figuras
das
rochas
3
da
Ver-
melhosa
ost
entariam
capace
tes
com
cornos.
No
ent
anto,
o
fact
o
de
uma
de-
las
ter
as
mãos
lev
antadas
a
segurar
o
que
seriam
os
cornos
e
dois
traç
os
oblí-
quos
a
fechar
as
linhas
curv
as,
lev
a
a
concluir
que
se
tra
ta
de
repr
esentações
de
figur
as
c
om
v
asos
à
c
abeça.
Os
guerreir
os
surg
em
a
pé,
ger
al-
mente
com
duas
lanças,
escudo
e,
por
ve
zes,
punhal.
Est
as
figuras
surg
em
iso-
ladas
ou
em
grupo,
nomeadament
e
em
cenas
de
duelo,
cujo
caso
mais
emble-
má
tico
é
o
da
rocha
3
da
Verm
elhosa,
onde
dois
guerreir
os,
com
a
panóplia
comple
ta
e
despidos
da
cintur
a
para
baixo
,
lançar
am
já
uma
lança
con
tra
o
adver
sário
e
brandem
uma
segunda.
Outros
ex
emplos
de
comba
te
parecem
env
olver
mais
element
os,
alguns
deles
deitados,
que
poderão
corr
esponder
a
comba
tentes
abatidos.
Nest
es
casos
de
vários
comba
tentes,
a
multiplicaç
ão
de
figuras
poderá
corr
esponder
também
a
uma
repr
esentação
narra
tiva
com
dife
-
rentes
momen
tos
jus
tapostos.
As
repr
esentações
de
monoma-
quia
são
comuns
na
iconogr
afia
ibéri-
ca
pré-r
omana,
com
especial
dest
aque
para
o
famoso
cabo
de
punhal
de
Las
Ruedas
e
outros
ex
emplos
em
La
Osera,
Numância
ou
T
ona.
Mais
comum
do
que
o
guerrei
-
ro
a
pé
é
a
figura
do
ca
valeiro
armado,
mont
ado
em
ca
valos
sem
sela,
ger
al-
mente
ost
entando
uma
lança
erguida
numa
mão,
ex
cecionalmente
com
escu-
do
,
e
com
a
outra
segurando
os
arreios,
desenhados
sob
forma
de
uma,
ou
mais
rar
amente,
duas
linhas,
ger
almente
em
ziguez
ague.
Estes
ca
valeiros
surg
em
isolados
ou
em
grupo,
ger
almente
repr
esentan-
do
cenas
de
caç
a
ao
veado
,
com
o
au-
xílio
de
guerreir
os
apeados,
ou,
mais
frequen
temente,
de
cães.
Est
a
prá
tica
da
caç
a
ao
veado
com
cães
surg
e
docu-
ment
ada
em
Xenof
onte
(
Cynege
ticus
9),
onde
se
aconsel
ha
que,
uma
ve
z
acossa
-
do,
o
veado
macho
seja
morto
à
dist
ân-
cia,
com
dardos,
para
evit
ar
ferimen
tos
pro
vocados
pelas
armaç
ões
e
c
oices.
De
entr
e
as
figuras
humanas
sa-
lien
ta-se
um
conjun
to
ao
qual
já
cha-
mámos
de
ornitocé
falos,
ou
guerreir
os
com
cabeç
a
de
pássaro.
São
figuras
cuja
cabeç
a
apresen
ta
um
bico
e
que
apre-
sen
tam
grandes
semelhanças
formais
com
outras
figuras
conhecidas
na
icono-
gr
afia
peninsular
,
sobre
tudo
no
diade-
ma
de
Mones
(Astúrias),
mas
também
na
cerâmic
a
de
Numância,
El
Monastil
ou
San
Miguel
de
Llíria.
Igualmen
te
com
cabeç
a
em
bico
de
pássaro
documen
ta-se
um
conjun
to
de
outras
figuras
não
ar-
madas,
como
dois
antr
opomorfos
da
Broeir
a
3
que
se
apresen
tam
com
os
braç
os
lev
antados,
int
erpretados
como
oran
tes.
Em
duas
outras
re
-
presentações
com
figuras
ornitocé
-
falas,
os
longos
braç
os
não
est
ão
le-
v
antados,
mas
dobrados
para
cima,
como
se
fossem
lev
antar
voo.
Num
des
tes
casos,
a
figura
surg
e
com
as
pernas
cort
adas,
como
que
a
sair
de
uma
irr
egularidade
da
r
ocha.
Panóplia
da
arte
rupestr
e
do
Vale
do
Côa:
lanças
(1.
Vale
da
Casa
10;
2.
Vermelhosa
3),
punhais
(3.
Fo
z
do
Côa
150;
4.
Penasc
osa
20;
5.
Vale
de
Cabrões),
falc
atas
(6.
Vale
da
Casa
6;
7.
Vale
da
Casa
10)
e
espada
(8.
Vale
da
Casa
10).
Desenhos
F
ernando
Barbosa.
65
9
VACCEA
ANUARIO
as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa
O bestiário
As
figuras
animais
dominam
em
termos
de
motivos,
embora
com
um
bestiário
reduzi
do,
compos
to
sobre
tu-
do
por
ca
valos,
cervídeos
e
canídeos.
É
con
tudo
por
ve
zes
difícil
distinguir
est
as
espécies,
uma
ve
z
que
as
figuras
são
ge
-
ralmente
padron
izadas
e
esquemátic
as,
sem
grande
elabor
ação
artístic
a.
Tr
ata-se
ger
almente
de
figuras
de
animais
com
grandes
orelhas,
corpo
comprid
o
e
pa-
t
as
pouc
o
desen
volvidas.
O
ca
valo
surg
e
associado
às
fi-
gur
as
humanas,
mas
também
isolada-
ment
e,
identific
ando-se
pela
sua
pos-
tura
e
pela
curv
a
da
crineira
e
cauda
comprida,
embora
muitas
ve
zes
difícil
de
distinguir
.
Regr
a
ger
al,
o
seu
aspet
o
é
bast
ante
distin
to
do
atual,
com
pat
as
curtas,
corpos
compridos,
ger
almente
sem
crina,
e
com
orelhas
longas.
Est
e
fact
o
ficar
-se-á
a
dev
er
ao
estilo
de
repr
esentações,
mas
também
às
dife
-
renças
físicas
dest
e
animal
em
relaç
ão
à
atualid
ade,
quando
a
seleção
de
raç
as
ainda
não
tinha
produzido
os
ca
valos
de
pat
as
long
as,
criados
para
o
salto
atr
a-
vés
de
trincheiras
duran
te
a
guerra.
O
ca
valo
não
parece
surgir
dire
tamente
associado
ao
comba
te,
com
a
ev
entual
ex
ceção
da
cena
da
Fo
z
do
Côa
153,
onde,
ao
lado
de
um
ca
valeiro
com
lança,
surg
e
uma
figura
humana
tomba-
da.
A
monomaquia
da
Vermelh
osa
3
é
con
tudo
um
caso
parado
xal,
na
qual
um
dos
guerr
eiros
que
luta
a
pé,
com
lança,
tem
os
arreios
de
um
ca
valo
presos
à
sua
cou
raça.
Est
a
repr
esentação
torna
eviden
te
a
denotaç
ão
de
pres
tígio
que
o
c
avalo
c
onfere
a
quem
se
lhe
associa.
Os
cervídeos
são
também
figu-
r
as
difíceis
de
iden
tificar,
com
a
ex
ceção
dos
machos,
que
ost
entam
as
suas
evi
-
dentes
hast
es,
ger
almente
repr
esenta-
das
de
forma
não
realis
ta
por
ramif
or-
mes.
Já
as
cor
ças
são
mais
difíceis
de
distinguir
pois
as
suas
orelhas
longas
e
caudas
curtas
surg
em
também
noutros
animais.
Assim,
a
forma
mais
segura
para
identific
ação
de
fêmeas
consis
te
na
sua
associaç
ão
a
machos.
O
cão
surg
e
em
cenas
de
caç
a
auxiliando
caç
adores
a
ca
valo.
Est
e
animal
surg
e
também
associado
a
cer-
vídeos
sem
caç
ador.
Os
canídeos
iden-
tificam-se
pela
sua
postur
a,
compor-
t
amento
e
pormenores
morfológic
os.
No
caso
da
postur
a,
salient
am-se
os
canídeos
deit
ados
com
a
cabeç
a
a
olhar
para
trás,
uma
postur
a
rec
onhecida,
por
ex
emplo,
na
est
ela
de
El
Palao.
Ao
nível
do
comport
amento,
os
dois
pares
de
animais
da
rocha
19
de
Vale
de
José
Est
eves,
que
se
apresen
tam
colados
pela
zona
post
erior
ligados
por
linhas,
suger
em
um
moment
o
pós-coit
al,
após
o
entumecimen
to
do
bulbus glandis
.
Os
Composições
narrativas
(1.
Foz
do
Côa
153;
2.
Vermelhosa
3;
3.
Foz
do
Côa
177;
4.
Bulha
38;
5.
Quinta
das
Tulhas
6).
Desenhos
Fernando
Barbosa.
66
9
VACCEA
ANUARIO
as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa
dentes
e
as
unhas
desenv
olvidas
são
outros
pormenores
que
identific
am
os
canídeos.
Contudo
,
com
a
ex
ceção
dos
casos
onde
há
uma
clara
int
eração
com
a
figura
humana
não
podemos
assegu-
r
ar
se
se
tra
tam
ver
dadeiramente
de
ca
-
nídeos
doméstic
os
ou
lobos.
O
fact
o
de
alguns
ter
em
cauda
curta
e
outros
com
-
prida
poderá
sugerir
uma
distinç
ão
en-
tr
e
doméstic
os
e
selvag
ens,
sendo
que
as
caudas
curtas
surg
em
associadas
a
pelo
menos
uma
cena
de
caç
a.
Est
e
fac
-
to
poderá
est
ar
relacionado
com
o
fact
o
de
os
caç
adores
cort
arem
as
caudas
dos
cães
par
a
não
a
fugentarem
a
c
aça.
Exist
e
ainda
um
conjun
to
de
ani-
mais
minoritários
nos
quais
se
int
egram
as
duas
av
es
e
o
peixe
sob
a
monoma-
quia
da
rocha
3
da
Vermelhosa.
Tr
ata-se
de
duas
av
es
necróf
agas
comendo
um
peixe.
Todas
as
figuras
se
apre
sentam
com
um
pree
nchimento
re
ticulado.
No
mesmo
painel
surg
e
uma
segunda
repr
esentação
de
av
e,
nest
e
caso
uma
rapina,
associada
a
um
antr
opomorfo
com
bic
o
de
pássar
o.
Estas
figuras
têm
paralelos
na
iconogr
afia
peninsular,
desde
os
dia-
demas
de
Mones,
at
é
às
est
elas
de
El
Palao
e
Binéf
ar,
passando
pela
pintur
a
vascular
de
Numância.
Finalmen
te,
re
fira-se
a
exis
tên-
cia
de
uma
repr
esentação
de
um
jav
ali,
denunciado
pelas
presas,
crina
dorsal
e
rabo
encar
acolado,
que
encon
tra
para
-
lelos
na
iconogr
afia
pré-r
omana
penin-
sular,
como
no
punhal
de
Las
Ruedas
ou
na
lúnula
de
Chão
de
Lamas
(Coimbr
a).
Por
falt
a
de
element
os
identi
-
ficadores
ou
de
con
texto
elucidativ
o,
e
pela
rela
tiva
dificuldade
na
distinç
ão
das
espécies
repr
esentadas,
que
vimos
descre
vendo,
não
será
de
estr
anhar
que
grande
parte
do
bestiário
da
arte
da
Ida-
de
do
Ferr
o
est
eja
inserida
no
conjun
to
dos
quadrúpedes
indet
erminados,
mas
que
se
dev
erão
enquadrar
nas
princi-
pais
espécies
acima
descrit
as.
Existe
ainda
um
outro
conjun
to
de
figuras
que
não
é
passível
de
qual-
quer
definiç
ão
realis
ta.
Est
a
inde
finição
dev
er-se-á
tan
to
à
inabilidade
dos
au-
t
ores,
quan
to
ao
fact
o
de
se
re
ferirem
a
realid
ades
imaginárias,
cujo
con
tex-
to
específic
o
desconhecemos.
A
rocha
18
do
Vale
de
José
Est
eves
é
dist
o
um
bom
ex
emplo.
Por
entr
e
canídeos
e
um
ca
valeiro,
surg
em
figuras
com
grandes
orelhas
e
aparen
temente
um
focinho
comprido
,
mas
sobre
tudo
figuras
espel-
hadas,
com
duas
cabeç
as
e
quatr
o
pat
as
diant
eiras
ligadas
por
um
mesmo
corpo.
Pela
sua
semelhança
com
outras
figu-
r
as
do
mesmo
painel
int
erpretamo-las
como
cães,
num
dos
casos
com
a
repr
e-
sentação
do
falo.
Ainda
no
campo
das
repr
esentações
imaginárias,
salien
ta-se
a
figura
de
um
quadrúpede
com
língua
bífida
e
cauda
comprida
com
“barba
ta-
nas”
dorsais,
que
poderá
corr
esponder
a
um
hipoc
ampo.
Outros signos
Para
além
de
um
conjun
to
imen-
so
de
traç
os
emaranhados
difíceis
de
identific
ar
como
ver
dadeiros
signos
estrutur
ados,
as
repr
esentações
figura
-
tivas
da
Idade
do
Ferr
o
do
Vale
do
Côa
coe
xistem
com
um
conjun
to
variado
de
signos.
De
entr
e
est
es
salient
a-se
um
alfabe
to
greg
o,
repr
esentado
junt
o
da
cena
de
caç
a
da
rocha
23
do
Vale
da
Casa
(Gomes
2013).
Tr
ata-se
da
primei-
r
a
evidência
de
escrita
na
região
,
embo-
r
a,
pela
sua
natur
eza
de
abecedário
e
Representações
zoomórfic
as:
Cav
alos
(1.
Vale
de
Cabrões
6;
2.
Azenha
3;
3.Fo
z
do
Côa
148),
cervídeos
(4.
Moinhos
de
Cima
7;
5.
Penasc
osa
14;
6.
Paç
o),
caní
-
deos
(7.
Vale
de
José
Est
eves
7;
8.
Vale
da
Casa
23;
9.
Azenha
3;
10.
Vale
de
José
Est
eves
17),
jav
ali
(11.
Fo
z
do
Côa
145),
bovino
(?)
(12.
Vale
do
Forno
6),
av
es
(13
e
14.
Vermelhosa
3)
e
indet
erminados
e
“fan
tásticos”
(15.
Fo
z
do
Côa
181;
16.
Vale
de
José
Est
eves
18;
17.
Vale
de
Cabrões
11;
18.
Vale
de
José
Est
eves
18).
Desenhos
F
ernando
Barbosa.
67
9
VACCEA
ANUARIO
as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa
contexto
int
erior,
seja
ques
tionável
se
o
seu
autor
saberia
ver
dadeiramente
ler
o
que
r
eproduziu.
Segue-se
um
conjun
to
de
moti-
v
os
re
tangulares
com
preenchimen
to
geomé
trico,
circular
es
preenchidos
e
meandriformes.
Alguns
dest
es
tipos
re-
pe
tem-se
em
dif
erentes
painéis,
como
seja
um
motivo
arboriforme
com
nervu
-
ra
centr
al
presen
te
na
Ribeira
da
Cabre
-
ira
3,
que
surg
e
sob
a
forma
de
cruz
na
Fo
z
do
Côa
181.
Est
es
padrões
geomé
-
tricos
surg
em
também
associados
à
de-
c
oração
do
int
erior
de
figuras
animais,
como
sejam
os
ca
valos,
parcial
ou
int
e-
gralmente
preenchidos
por
decor
ações
baseadas
em
padrões
de
linhas
re
tas
ou
onduladas.
Regis
te-se
ainda
a
repr
esen-
tação
de
círculo
s
na
espádua
e
na
co
xa.
O
mesmo
acon
tece
com
os
cer
vídeos,
atr
avés
do
pree
nchimento
por
linhas
re
tas
subparalelas
ou
por
decor
ações
meandriformes.
A ideologia guerreira expressa
na arte rupestre
Ainda
em
grande
medida
des-
c
onhecida,
a
arte
da
Idade
do
Ferr
o
do
Vale
do
Côa
apresen
ta
uma
notá
vel
riquez
a
ao
nível
do
suporte,
número
e
iconogr
afia,
que
merece
um
estudo
aprofundado.
Apesar
das
grandes
se-
melhanç
as
formais
com
a
res
tante
ico
-
nografia
pré-r
omana
da
Península
Ibéri-
c
a,
ela
af
asta-se
dela
pelo
suport
e.
Com
rar
as
ex
ceções
nos
vales
do
Guadiana
e
do
Sabor,
entr
e
outras,
a
esmag
adora
maioria
das
iconogr
afias
dest
a
época
surg
em
sobre
cerâmic
a,
ourivesaria
e
escultura.
O
fact
o
de
ela
surgir
em
suporte
rochoso
fixo
(os
painéis
vertic
ais
de
xis-
to
do
Vale
do
Côa)
con
fere-lhe
um
uma
relaç
ão
inex
tricável
com
o
con
texto
am-
bien
tal
e
geogr
áfico
em
que
se
inscr
eve,
cons
tituindo
um
ver
dadeiro
ex
emplo
de
“
land
art
”,
onde
o
espaço
é
também
um
dos
meios
da
criação.
Ela
tes
temunha
uma
cons
trução
social
do
espaço
,
uma
domestic
ação
da
natur
eza
pela
arte,
humanizando-a
e
con
ferindo-lhe
senti
-
do
a
través
da
ic
onografia
r
epresentada.
A
loc
alização
dest
a
arte,
ainda
que
con
dicionada
pelas
condiç
ões
na-
tur
ais
de
formaç
ão
e
preser
vação
dos
painéis
vertic
ais
de
xist
o,
denota
uma
relaç
ão
pró
xima
com
a
água
e
a
sua
con
fluência,
sejam
os
rios
Côa
e
Douro
,
sejam
os
inúmeros
cursos
de
água
sa-
z
onais,
que
lev
am
a
água
da
superfície
final
da
Meset
a,
a
cerc
a
de
400
metr
os
acima
do
nível
médio
do
mar,
at
é
ao
fundo
dos
vales
dos
rios,
a
cerc
a
de
110
metr
os.
Tr
ata-se
de
uma
arte
frequen
-
temente
narra
tiva,
onde
os
temas
se
vão
repe
tindo
ao
longo
dos
difer
entes
painéis
e
sítios.
As
suas
repr
esentações
acentuam
a
temá
tica
da
virilidade,
evi
-
dente
na
repr
esentação
dos
sex
os
dos
humanos
e
animais
ou
nas
hast
es
dos
veados.
Desconhecemos
qualquer
re-
pr
esentação
humana
que
possa
ser
identific
ada
com
o
géner
o
fe
minino,
com
a
ex
ceção
de
duas
repr
esentações
de
coit
o
post
erior,
que
poderão
con
tu-
do
corr
esponder
a
at
os
homosse
xuais,
uma
ve
z
que
as
figuras
penetr
adas
não
ost
entam
qualquer
atribut
o
fe
minino.
Também
as
figuras
que
ost
entam
vasos
à
cabeç
a,
que
na
etnogr
afia
portugue
-
sa
corr
esponde
a
uma
prá
tica
fe
minina,
não
apresen
tam
qualquer
outro
atribu-
t
o
f
eminino.
As
ações
dest
as
figuras
re
forçam
também
est
a
noção
de
virilidade.
Elas
Outros
signos
(1.
Foz
do
Côa
181;
2.
Vale
da
Casa
23;
3.
Quin
ta
das
T
ulhas
2;
4.
Az
enha
3;
5.
Az
enha
3;
6.
Bulha
19;
7.
F
oz
do
Côa
92).
Desenhos
F
ernando
Barbosa.
68
9
VACCEA
ANUARIO
as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa
surgem
a
ca
valo,
ost
entando
armas,
a
lutar
em
entr
e
si
a
pé
e
a
caç
arem.
Es-
t
amos
assim
peran
te
um
conjun
to
de
repr
esentações
que
heroiciz
am
da
figu-
r
a
do
guerreir
o,
que
surg
e
com
as
suas
armas
a
c
avalo.
Existe
uma
relaç
ão
dire
ta
entr
e
a
repr
esentação
de
ca
valeiros
armados
e
a
heroific
ação
de
guerreir
os
mortos,
aludindo
à
última
viagem
dest
es.
Essa
relaç
ão
dev
erá
ter
origem
pelo
menos
na
I
Idade
do
Ferr
o,
como
mostr
a
a
es
tela
de
Benaciat
e
(Silves).
Os
ca
valeiros
he-
roific
ados
con
tinuam
at
é
ao
século
I
a.C.
por
toda
a
Península,
como
o
ex
empli-
ficam
a
pintur
a
e
escultura
ibéricas,
as
est
elas
de
Baixo
Arag
ão
e
Cat
alunha
ou
o
diadema
de
Mones.
T
ambém
a
monomaquia
é
uma
temá
tica
com
larg
a
tradiç
ão
liter
ária
desde
a
Guerra
de
Tr
oia
(Ilíada
3,
86-
94),
à
re
solução
do
cerc
o
de
Int
ercatia
,
em
pleno
territ
ório
Vaceu
(Apiano,
His-
tória
de Roma
,
6,
53),
passando
pelos
funerais
do
pai
e
tio
de
Públio
Cornélio
Cipião,
o
Africano
(Tito
Lívio,
Ab Urbe
Condit
a
,
28,
21)
ou
de
Viriat
o
(Apiano,
Hist
oria de Roma
,
6,
75),
o
chef
e
dos
Lusitanos.
Ela
pode
ser
ent
endida
como
uma
forma
de
evit
ar
o
comba
te
gene
-
ralizado
entr
e
dois
ex
ércitos
ou
pres
tar
homenagem
aos
chef
es
mortos.
O
rela
-
to
de
Tito
Lívio
re
vela
est
as
duas
moti-
v
ações:
homens
livres,
repr
esentantes
dos
príncipes
aliados,
lutar
am
para
hon-
rar
os
seus
gene
rais
mortos,
mas
tam
-
bém
par
a
r
esolver
c
onflitos
penden
tes.
Esta
prá
tica
ilustr
a
a
aceitaç
ão
da
morte
pelo
guerr
eiro,
a
mais
profunda
e
exig
ente
das
responsabilidades
huma-
nas.
Os
guerr
eiros
comba
tem
olhando-se
e
ofer
ecem
a
sua
morte,
enobr
ecen-
do-se.
Eles
troc
am
assim
o
prolong
amen-
to
de
uma
vida
con
fortável,
mas
ef
éme-
ra,
pela
fama
duradour
a
na
memória
dos
mortais,
a
firmando
que
a
fide
lidade
f
ace
ao
chef
e
ultrapassa
as
fron
teiras
en
tre
a
vida
e
a
mort
e
(Olmos
1996).
A
morte
propria
mente
dita
é
ra
-
ramente
repr
esentada
na
arte
do
Côa,
mas
julgamos
iden
tificá-la
em
algumas
repr
esentações
com
figuras
deitadas,
que
surg
em
entr
e
guerreir
os
apeados
ou
face
um
ca
valeiro
com
lança,
numa
cena
com
grandes
semelhanças
com
a
est
ela
de
El
P
alao.
Quando
não
comba
te,
o
guerre
iro
caç
a,
a
principal
ocupação
das
elites
du-
ran
te
a
paz.
Ela
pode
ter
também
uma
conot
ação
com
a
morte
e
o
mundo
in-
ferior
,
nomeadament
e
a
caç
a
ao
veado
,
pela
sua
relaç
ão
com
o
deus
céltico
Cer-
nunnos,
r
epresentado
c
om
armaç
ões.
Ao
seu
lado
traz
o
cão
,
que
o
acompanha
na
caç
a,
como
nos
con
ta
Xenof
onte,
e
surg
e
igualment
e
como
símbolo
de
pres
tígio
do
nobre,
guardan-
do
fielment
e
a
sua
casa
(ver
por
ex
em-
plo
a
fidelidade
de
Arg
os
a
Ulisses).
O
cão
também
pode
ter
uma
associação
ao
outro
mundo,
acompanhand
o
o
seu
dono
na
morte
(
Ilíada
,
23,
173-174),
o
que
sucede
com
mais
clare
za
com
o
lobo,
associado
ao
deus
céltico
Sucellus,
repr
esentado,
por
ex
emplo,
na
est
ela
de
Zurita
(Cant
ábria),
transport
ando
o
dev
orado
nas
suas
entr
anhas
at
é
ao
Ou-
tr
o
Mundo
,
onde
ir
á
r
enascer.
A
repr
esentação
de
av
es
necróf
a-
gas
poderá
aludir
à
prá
tica
de
exposiç
ão
dos
corpos
dos
caídos
em
comba
te,
ci-
t
ada
por
ex
emplo
por
Sílio
Itálic
o
(
Pu
-
nica
,
13,
470-471),
a
respeit
o
dos
ibe-
r
os,
cujos
corpos
seriam
dev
orados
por
um
abutr
e
sinistr
o,
ou
na
passagem
de
Cláudio
Eliano
(
De
Natura Animalium
,
10,
22),
que
atribui
o
mesmo
destino
aos
guerreir
os
Vaceus
mortos
em
com
-
bate.
A
relaç
ão
entr
e
av
e
e
peixe
figu-
r
a
igualment
e
nos
diademas
de
Mones
int
erpretados
como
a
repr
esentação
do
trânsit
o
aquátic
o
dos
guerreir
os
para
o
Outro
Mundo.
Desc
onhecido
at
é
há
pouco
,
o
jav
ali
faz
agor
a
também
parte
do
bes-
tiário
do
Côa,
no
limite
ocident
al
da
sua
principal
área
de
distribuiç
ão.
Também
o
tour
o
parece
surgir
numa
gra
vura
do
Côa,
est
ando
assim
comple
to
o
bes-
tiário
das
principais
repr
esentações
pe-
ninsular
es.
Dos
motivos
analisados
e
da
sua
compar
ação
iconogr
áfica
com
um
vas
to
Cavaleiro
com
lança.
Pormenor
da
Rocha
1
da
Vermelhosa.
69
9
VACCEA
ANUARIO
conjunto
da
iconogr
afia
pré-r
omana
pe-
ninsular
,
nomeadame
nte
os
diademas
de
Mones
(Marc
o
Simón
1994),
bem
como
alguns
motivos
da
pintur
a
vascu
-
lar
ibéric
a
e
numantina
e
das
es
telas
do
Ba
ixo
Arag
ão,
parece
perceber
-se
uma
mensagem,
bem
pat
ente
na
rocha
3
da
Ve
rmelhosa.
As
repr
esentações
do
Vale
do
Côa
são
a
expr
essão
de
uma
ideolo
-
gia
que
visa
a
heroific
ação
da
figura
do
guerreir
o,
atr
avés
da
repr
odução
da
mi-
t
ologia
de
orige
m
céltica
na
qual,
após
a
sua
morte,
o
guerreir
o
atr
avessa
as
águas
para
o
Outro
Mundo,
atingindo
a
imortalidade.
A
mensagem
fala-nos
da
viage
m
do
herói,
a
ca
tábase,
que
consis
te
na
sua
descida
aos
inf
ernos.
As
imagens
assina-
as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa
Rocha
3
da
Vermelhosa.
Desenho
Fernando
Barbosa.
As
linhas
de
algumas
figuras
encon-
tram-se
mais
espessas
par
a
f
acilitar
a
leitur
a.
70
9
VACCEA
ANUARIO
as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa
lam
o
pont
o
de
separaç
ão
e
o
es
paço
de
encon
tro
entr
e
mortos
e
vivos,
fixando
a
despe
dida
e
o
caminho.
O
suporte
icono
-
gráfico
repr
esenta
a
fron
teira
e
o
encon
tro
de
dois
mundos,
est
e
que
conhe
cemos
e
o
Outr
o
Mundo
,
só
acessív
el
par
a
alguns.
Nest
a
viagem
o
herói
tem
o
au-
xílio
de
um
con
junto
de
animais
psic
o-
pompos
(ca
valo,
canídeo
,
necróf
agos,
jav
ali,
hipocampo
,
et
c.).
O
caminho
de
acesso
ao
Outro
Mundo
é
atr
avés
das
águas
(Marc
o
Simón
1994),
que,
nest
e
caso
,
con
fluem
com
o
Douro
e
o
Côa.
Nest
a
última
viagem,
da
qual
alguns
têm
con
hecimento
pré
vio,
os
guerrei
-
ros
trans
formam-se
em
pássaros,
pelo
que
damos
grande
importância
às
figu-
r
as
com
bico
de
pássaro
,
que
poderão
con
tudo
ter
uma
cronologia
específica,
para
já
impossív
el
de
de
terminar.
A
morte
é
ent
endida
como
uma
realidade
simétric
a
da
vida.
Ela
é
um
es-
pelho
e
prolong
amento
dos
usos
e
pri-
vilégios
das
elites
(Olmos
1996).
Nest
e
sentido
torna-se
mais
fácil
compr
een-
der
os
animais
espelhados
da
rocha
18
do
Vale
de
José
Est
eves.
Eles
est
ão
entr
e
os
dois
mundos.
A
arte
do
Côa
é
assim
uma
arte
de
fron
teira,
que
separa,
mas
também
liga
o
mundo
dos
mortos
e
dos
vivos.
O
fact
o
do
Vale
do
Côa
se
situar
preci
-
samente
no
limite
ocident
al
da
Meset
a
Ibérica,
a
maior
unidade
geomorf
oló-
gica
da
Península
Ibérica,
apont
a
para
que
est
a
arte
est
eja
também
localiz
a-
da
numa
fron
teira
entr
e
os
vivos.
Est
a
noção
da
arte
como
fron
teira
surg
e
re-
f
orçada
pelo
con
texto
de
identific
ação
das
cent
enas
placas
com
arte
móv
el,
estilis
ticamente
semelhant
es
à
arte
do
Côa,
no
int
erior
de
um
fosso
do
sítio
do
Cast
elinho
(San
tos
et
al.
2012),
que
separa
o
int
erior
do
ex
terior
da
fortifi
-
cação.
A
arte
da
Idade
do
Ferr
o
do
Vale
do
Côa
parece
assim
ser
a
expr
essão
de
um
subs
trato
cultural
pré-r
omano,
cuja
int
erpretação
apenas
intuímos.
Sem
a
longa
tradiç
ão
da
inv
estigação
arqueo-
lógic
a
na
região
Vaceia,
falt
a-nos
ain-
da
um
longo
caminho
para
perc
orrer
na
int
erpretação
dest
a
arte
loc
alizada
nos
con
fins
da
mesma
Meset
a.
Par
a
além
do
esboço
int
erpretativo
que
aqui
apresen
tamos
ela
con
terá
seguramen
te
outros
níveis
de
leitura,
e
nov
as
desco
-
bertas
virão
segur
amente
con
trariar
ou
acrescen
tar
o
que
aqui
fica
dito.
Por
ou-
tro
lado,
o
est
ado
atual
de
grande
des-
c
onhecimento
lev
a-nos
a
não
dis
tinguir
ainda
as
suas
subtile
zas
crono
lógicas,
tra
tando
como
um
todo
repr
esentações
de
distin
tas
fases.
De
moment
o,
a
atri
-
buição
cronológ
ica
genéric
a
dest
a
arte
baseia-se,
em
primeiro
lugar
,
nos
temas
e
suas
formas
de
repr
esentação,
a
par-
tir
de
compar
ações
com
a
icon
ografia
expr
essa
na
joalharia,
escultura
e
pin-
tura
vascular
da
Península
Ibérica,
que
apont
am
para
os
séculos
III-II
e
I
a.C.
A
identific
ação
da
arte
da
Idade
do
Ferr
o
num
dos
fossos
do
sítio
do
Cast
elinho,
a
cerc
a
de
10
quilóme
tros
a
norte
do
Côa,
foi
precisamen
te
dat
ada
dos
séculos
II
a
I
a.C.
(Sant
os
et
al.
2012),
fornecendo
uma
boa
re
ferência
cronológic
a
regio
-
nal.
A
identific
ação
das
placas
do
Paç
o
e
Olival
dos
Telhões
em
sítios
com
ocu-
pação
romana,
apont
a
para
que
o
seu
fim
seja
duran
te
os
alvor
es
da
ocupação
romana.
Verific
a-se
alguma
con
tradição
entr
e
a
ideologia
expr
essa
na
arte
ru-
pes
tre
e
os
outros
ves
tígios
arqueoló-
gic
os
da
ocupaç
ão
pré-r
omana
dest
a
região.
Os
ves
tígios
do
Sabor
apont
am
para
comunidades
essencialment
e
agrí
-
colas,
atividade
ausent
e
das
re
presen-
tações
artístic
as.
No
ent
anto,
o
fact
o
de,
tan
to
no
Cast
elinho
como
em
Cres
te-
los,
os
celeiros
ter
em
sido
fortific
ados,
conjug
ado
com
a
presenç
a
de
algum
equipament
o
militar
(pont
as,
con
tos
de
lança
e
falc
atas),
suger
em
uma
socieda-
de
baseada
na
acumulação
de
recur
sos
e
na
sua
distribuiç
ão
desigual.
Talv
ez
tenha
sido
est
e
modelo
económic
o
que
tenha
justific
ado
a
necessidade
de
uma
ideologia
que
afirma
e
perpetua
o
po-
der,
e
xpressa
na
art
e.
Esta
sociedade
e
a
sua
ment
ali-
dade
irão
desaparecer
com
a
ocupação
da
Península
Ibérica
pelas
tropas
roma
-
nas,
que
est
es
guerreir
os
não
consegui-
r
am
tra
var,
divididos,
mal
org
anizados
e
orgulhosos
da
sua
morte.
As
mudanças
radic
ais
nas
sociedades
indígenas,
pro
-
vocadas
pela
inv
asão
dos
ex
ércitos
ro
-
manos
e
consequen
te
pacificaç
ão,
irá
pro
vocar
a
aculturaç
ão
e
o
fim
da
ideo-
logia
guerreir
a
que
deu
origem
à
arte
rupestr
e
do
V
ale
do
Côa.
Bibliografia
Gomes,
M.V.,
2013.
O
abecedário
rupestr
e,
prot
o-histórico,
do
Vale
da
Casa
(Vila
Nov
a
de
Fo
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Re
vista da Faculdade
de Letras - Ciências e Técnicas do Pa-
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L
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Em
busca
dos
ca
valeiros
com
cabeç
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pássaro:
Per
spectivas
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in-
ves
tigação
da
Prot
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Vale
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In
R.
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de Europa
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Junt
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Castilla
y
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―
2009.
“Per
petr
as
et
per
signos”:
A
arte
rupestr
e
do
Vale
do
Côa
enquant
o
cons
-
trutora
do
espaço
na
Prot
o-história.
In
P.
J.
Sanabria
Marc
os,
ed.
Lusitanos
y
vettones: Los pueblos prerromanos en
la actual demarcación Beira Baixa - Alto
Alentejo - Cáceres
.
Cáceres:
Junt
a
de
Ex-
tremadur
a;
Museo
de
Cáceres
(Memo-
rias;
9),
pp.
213–240.
―
2010.
A
cons
trução
do
espaço
numa
so-
ciedade
prot
o-histórica:
A
arte
rupestr
e
do
Vale
do
Côa.
In
F.
de
Oliveir
a,
J.
de
Oliveir
a,
&
M.
Pa
trocínio,
eds.
Espaços
e
Paisagens: Antiguidade Clássica e He-
ranças Contemporâneas (Vol. 3: Histó-
ria, Arqueologia e Arte)
.
Coimbra,
pp.
53–67.
Marc
o
Simón,
F.,
1994.
Heroiciz
ación
y
tránsit
o
acuátic
o:
Sobre
las
diademas
de
Mones
(Piloña,
Asturias).
In
J.
Mangas
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J.
Alvar
,
eds.
Homenaje a
J.M. Blázquez.
Vol. 2
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Madrid:
Ediciones
Clásicas,
pp.
318–348.
Neve
s,
D.
&
Figueiredo
,
S.S.
de,
2015.
Qui-
nhent
as
placas
gra
vadas
da
Idade
do
Ferr
o
do
sítio
fortific
ado
do
Cast
elinho
(
Nordes
te
Portug
al
):
temas
figurados
e
padrões
de
distribuiç
ão.
In
H.
Collado
Giraldo
&
J.
J.
García
Arranz,
eds.
XIX In
-
ternational Rock Art Conference IFRAO
2015: Symbols in the Landscape: Rock
Art and Its Context [DVD-Rom]
.
Tomar:
Institut
o
Terr
a
e
Memória
(Arkeos;
37),
pp.
1589–1605.
Olmo
s,
R.,
1996.
Caminos
escondid
os.
Ima-
ginarios
del
espacio
en
la
muerte.
Com-
plutum Extra
,
6(2),
pp.167–176.
Reis,
M.,
2012.
“Mil
rochas
e
tal...!”:
Inv
entá-
rio
dos
sítios
de
arte
rupestr
e
do
Vale
do
Côa.
Portugália
,
33,
pp.5–72.
―
2013.
“Mil
rochas
e
tal...!”:
Inv
entário
dos
sítios
de
arte
rupestr
e
do
Vale
do
Côa
(2
a
parte).
Portugália
,
34,
pp.5–68.
―
2014.
Mil
roch
as
e
tal...!’:
Inv
entário
dos
sítios
da
Arte
Rupestr
e
do
Vale
do
Côa
(conclusão).
Portugália
,
35(nov
a
série),
pp.17–59.
Sant
os,
F.
et
al.,
2012.
El
sitio
fortific
ado
del
Cast
elinho
(Felg
ar,
Torr
e
de
Moncor-
v
o,
Portug
al).
Estudio
preliminar
de
su
diacronía
y
las
plaquet
as
de
piedra
con
grabados
de
la
Edad
del
Hierro.
Complu-
tum
,
23(1),
pp.165–179.
S
astre,
J.,
2014.
Da
Idade
do
Ferr
o
à
Ro
-
manização
da
área
de
Cres
telos.
In
A.
P.
Dinis,
ed.
I E
ncontro de Arqueologia de
Mogadouro: Actas
.
Mogadour
o:
Municí-
pio
de
Mog
adouro,
pp.
79–94.
Luís
Luís
Fundaç
ão Côa Parque