www.pintiavaccea.es5 € PINTIA CAMPAÑA XXVI GRAVURAS DEL CÔA Idade do Ferro TARIEGO DE CERRATO CIU dade S V a CC ea S ORFEBRERÍA VACCEA ERAS DEL BOSQUE e N e L MUS eo de G ra N ada
60 9 VACCEA ANUARIO A as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa Arte rupestre no limite ocidental da Meseta O Vale do Côa situa-se no ex tre-mo ociden tal da Meset a Ibérica, no in-terior nort e de Portug al, a cerc a de 20 quilómetr os da fron teira com Espanha. O rio Côa defin iu mesmo a fron teira entr e os reinos de Portug al e de Leão e Cast ela at é 1297, quando o Tr atado de Alcañices passou a fron teira para o rio Águeda.Est a realidade hist órica re flete o fact o de o Baixo Côa se localiz ar muito pró ximo do limite ocident al da Meset a Ibérica, aqui definido pela grande falha geológic a que vai desde a Serra da Es-
61 9 VACCEA ANUARIO trela (Portugal) at é Puebla de Sanabria (Espanha). Imediat amente ant es do fim dest e acident e, o rio Côa foi esca vando um vale profun do, com cerc a de 400 metr os de desnível em relaç ão ao pla-nalto circundan te do final da Meset a, definindo assim uma barr eira na tural.Foi nest a região que em 1991 começ ou a ser descobert o o maior conjun to de arte paleolítica ao ar livre, quando se cons truía uma barrag em hidroelé trica que iria submergir todo o vale. A int ervenção dos portugueses e da comunidade científic a int ernacional fe z com que o proje to fosse abandona-do, e a arte rupestr e foi inscrita na List a de Pa trimónio Mundial da UNESC O em 1998.Mas se a arte do Côa é conheci-da sobre tudo por se tra tar do mais im-port ante conjun to de arte paleolítica ao ar livr e do mundo , ela apresen ta outras fases artístic as, que chegam at é ao sé-culo XX. Um dos conjun tos mais impor-tan tes é a arte rupestr e da Idade do Fe -rro, que cons titui hoje a segunda mais rele vante fase artístic a da arte rupestr e do Vale do Côa, identific ada em 46 nú-cleos de arte distin tos, num tot al de 455 rochas gra vadas (Reis 2014). Contudo , a importância da arte paleolítica será o principal fa tor que lev a a que se tra te de uma arte em grande medida ainda desconhecida. Apesar dos av anços na prospeç ão e da identific ação de nov os painéis e sítios, que têm vindo a ser pe-riodic amente apresen tados (Reis 2012, 2013 e 2014), do re gistro gr áfico de cinco dez enas de painéis gra vados e da document ação fot ográfica re alizada por Mário Reis, parcialme nte disponív el na página int ernet da Fundação Côa Par que (http://w ww.arte-coa.pt), a esmagador a maioria dest as rochas con tinua inédita. A partir dos poucos dados publicados, for am apre sentadas algumas ten ta-tivas de int erpretação dest as re presen-tações (Luís 2008, 2009 e 2010), que aqui r etomamos.Por falt a de inv estigação, o nosso desconhecimen to est ende-se também ao con texto regional da ocupação hu- Localização da arte rupestre do Vale do Côa no limite ocidental da Meseta Ibérica. Os números corr esponde aos sítios do rio Sabor , r eferidos no t exto (1. V ale de Figueir a; 2. Cas telinho; 3. Cr estelos).Localização dos v estígios de art e rupes tre e ocu -pação humana da Idade do F erro e R omanização no V ale do Côa. as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa
62 9 VACCEA ANUARIO as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa mana con temporânea da arte. Apesar disso, o pov oado fortific ado de altu-r a parece con tinuar a ser o cen tro do pov oamento, com alguns pov oados fortific ados, cuja cronologia é ainda incerta, localiz ados no cimo de rele -vos, nem sempre muito acentuados, junt o a zonas agrícolas e associados a ve stígios romanos localiz ados no sopé des tas elev ações (Mont e Meão , Mont e do Cast elo, Cast elo dos Mouros). Par a além desses pólos concen tradores de pov oamento, outro tipo de assent a-mentos, mais ligados às tar efas quo-tidianas e mais invisív eis arqueologi -camente, car acterizariam a ocupação regional (Folhal 2). Estudos rece ntes a norte do Côa, no vale do Sabor, vie-r am compr ovar est a dualidade no po-v oamento regional, salien tando-se a esca vação do pov oado fortific ado do Cast elinho (Sant os et al. 2012), bem como em Cre stelos, com zona fortific a-da, mais alta, e uma outra, localiz ada no sopé, com estrutur as habitacionais, post eriormente romaniz adas (Sastr e 2014). Em ambos os sítios, for am iden -tificadas cer ca de 500 e 100 placas gra -vadas com arte móv el, respe tivamente, com grande s semelhanç as com a arte rupestr e do Côa. O fact o de ter em sido iden tificadas em con texto arqueológic o torna-se numa re ferência cronológic a fundament al para a dat ação da arte do Côa. No Sabor for am ainda iden tifica-dos painéis com arte rupestr e sidéric a no Vale Figueira e junt o a Cre stelos (Ne -ves & Figueiredo 2015). Tan to no Côa como no Sabor, desc onhece-se qual-que r necr ópole.A arte rupestr e da Idade do Fe -rro do Vale do Côa rec orre ao mesmo tipo de painéis ve rticais de xist o uti-liz ado pela res tante arte rupestr e do vale , partilhando mesmo muitos deles, sobre tudo com a fase final da arte pa-le olítica. A arte do Ferr o localiz a-se so-br etudo em torno da con fluência do rio Côa com o Douro e em ambas as mar-gens des te, para mont ante e jusant e, bem como , em menor medida, para o int erior cur so do Côa.P ara além dos aflor amentos ro -chosos de xist o, for am ainda iden tifi-cadas duas placas móv eis com motivos da Idade do Ferr o, em zonas onde se iden tificam ve stígios arqueológic os ro -manos (P aço e Oliv al dos T elhões). A técnic a predominan te de re -presentação é a gra vura com recur so a instrumen to met álico, a julgar pela análise macrosc ópica dos traç os gra va-dos com perfil em U, conjug ada com a inv estigação e xperimental. A for ça apli-c ada no at o da gra vação, e ev entual-mente o tipo de utensílio empregue, faz com que est a técnic a simples apre -sente grande s variaç ões, desde figuras profundame nte gra vadas, como a placa do Paç o, at é lige iros dese nhos, que se mat erializam não pela gra vação de um sulco na rocha, mas por uma lige ira ras -pagem, criando um con traste cromá ti-co entr e a linha clara e a superfície mais escura do painel. As repr esentações da Idade do Ferr o do Vale do Côa surg em ger almen-te em grande s sobre posições de moti-v os, mais ou menos org anizados, mas també m em cenas narra tivas. As figu-r as surg em ge ralmente de perfil, ou, no caso de algumas figuras humanas, em per spetiva fron tal, desc onhecendo-se, at é ao momen to, qualquer figura evi -dente e m per spetiva z enital. Os guerreiros e as armas Embora os quadrúpedes sejam numericamen te mais comuns, a figu-r a humana é cen tral na arte da Idade do Ferr o no Vale do Côa, pelo grande des taque que lhe é dado, pelo seu ta -manho, pelas particularidades e det al-hes das suas repr esentações e pela sua cen tralidade no con texto das cenas na-rr ativas, onde figuram outros animais que se lhe subme tem. Confluência do rio Côa com o rio Douro. A arte rupestr e localiz a-se na vert ente em fren te e nos vales que afluem para o Douro direit a). Fot o José Paulo Ruas.
63 9 VACCEA ANUARIO as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa Placa do Paço. Notar a diferença na profundidade dos tr aços e o perfil em U dos tr aços mais lar gos. Fot o Manuel Almeida. R epresentações humanas da art e do V ale do Côa. (1. P aço; 2. V ermelhosa 3; 3. F oz do Côa 95; 4. V ermelhosa 3; 5. V ale do F orno 6; 6. Ribeir a de Urr os 1; 7. F oz do Côa 93; 8. V ermelhosa 3; 9. V ale do F orno 6; 10. V ale da Casa 10; 11. F oz do Côa 42). Desenhos F ernando Barbosa.
64 9 VACCEA ANUARIO as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa Estas figuras são sempre homens e guerreir os. Se o seu géner o é por ve zes compr ovado pela repr esentação do sex o, o seu est atuto de guerreir o lhe é con ferido pela associação a um conjun to de armas. Essa panóplia cons -ta sobre tudo de lanças, ger almente com a repr esentação do con to, e escudos circular es, repr esentados em perspe ti-va fron tal, ou mais rar amente de perfil. Par a além disso, surg em també m punhais, falc atas e mais rar amente espadas. Al-guns guerreir os apresen tam um conjun-t o de linhas re ticuladas sobre a região do ven tre, o que suger e a utilizaç ão de uma espécie de cour aça que prot ege essa região. Noutros casos, essas linhas res tringem-se à zona da cintur a, suge -rindo a utilizaç ão de cintur ões. Na cena de duelo da rocha 3 da Vermelhosa, os guerreir os apresen tam ainda um con -junto de linhas na zona das canelas, que dev erão corr esponder a cnémides ou grebas, prot eções que, nest e caso , não seriam met álicas, mas cons tituídas por fitas de c ouro.Esta panóplia corr esponde qua-se na ínt egra à descrição de Estr abão (Geografia , III, 3, 6) do armament o dos Lusitanos, embora se possa alarg ar a grande parte dos pov os pré-r omanos peninsulares. Da descrição do geógr a-fo clássico , apenas o capace te parece est ar ausent e, com a ex ceção de dois casos duvidosos, das rochas 23 do Vale da Casa, onde um simples traç o pode- suger ir um capace te com pala, e 10 do mesmo sítio, onde duas figuras des-armadas aprese ntam a cabeç a cobert a por algo que poderia corr esponder a um capace te de crist a em perspe tiva fron tal.Poder-se-ia ainda pensar que duas das figuras das rochas 3 da Ver-melhosa ost entariam capace tes com cornos. No ent anto, o fact o de uma de-las ter as mãos lev antadas a segurar o que seriam os cornos e dois traç os oblí-quos a fechar as linhas curv as, lev a a concluir que se tra ta de repr esentações de figur as c om v asos à c abeça.Os guerreir os surg em a pé, ger al-mente com duas lanças, escudo e, por ve zes, punhal. Est as figuras surg em iso-ladas ou em grupo, nomeadament e em cenas de duelo, cujo caso mais emble- tico é o da rocha 3 da Verm elhosa, onde dois guerreir os, com a panóplia comple ta e despidos da cintur a para baixo , lançar am uma lança con tra o adver sário e brandem uma segunda. Outros ex emplos de comba te parecem env olver mais element os, alguns deles deitados, que poderão corr esponder a comba tentes abatidos. Nest es casos de vários comba tentes, a multiplicaç ão de figuras poderá corr esponder também a uma repr esentação narra tiva com dife -rentes momen tos jus tapostos.As repr esentações de monoma-quia são comuns na iconogr afia ibéri-ca pré-r omana, com especial dest aque para o famoso cabo de punhal de Las Ruedas e outros ex emplos em La Osera, Numância ou T ona.Mais comum do que o guerrei -ro a é a figura do ca valeiro armado, mont ado em ca valos sem sela, ger al-mente ost entando uma lança erguida numa mão, ex cecionalmente com escu-do , e com a outra segurando os arreios, desenhados sob forma de uma, ou mais rar amente, duas linhas, ger almente em ziguez ague.Estes ca valeiros surg em isolados ou em grupo, ger almente repr esentan-do cenas de caç a ao veado , com o au-xílio de guerreir os apeados, ou, mais frequen temente, de cães. Est a prá tica da caç a ao veado com cães surg e docu-ment ada em Xenof onte (Cynege ticus 9), onde se aconsel ha que, uma ve z acossa -do, o veado macho seja morto à dist ân-cia, com dardos, para evit ar ferimen tos pro vocados pelas armaç ões e c oices. De entr e as figuras humanas sa-lien ta-se um conjun to ao qual cha-mámos de ornitocé falos, ou guerreir os com cabeç a de pássaro. São figuras cuja cabeç a apresen ta um bico e que apre-sen tam grandes semelhanças formais com outras figuras conhecidas na icono-gr afia peninsular , sobre tudo no diade-ma de Mones (Astúrias), mas também na cerâmic a de Numância, El Monastil ou San Miguel de Llíria.Igualmen te com cabeç a em bico de pássaro documen ta-se um conjun to de outras figuras não ar-madas, como dois antr opomorfos da Broeir a 3 que se apresen tam com os braç os lev antados, int erpretados como oran tes. Em duas outras re -presentações com figuras ornitocé -falas, os longos braç os não est ão le-v antados, mas dobrados para cima, como se fossem lev antar voo. Num des tes casos, a figura surg e com as pernas cort adas, como que a sair de uma irr egularidade da r ocha. Panóplia da arte rupestr e do Vale do Côa: lanças (1. Vale da Casa 10; 2. Vermelhosa 3), punhais (3. Fo z do Côa 150; 4. Penasc osa 20; 5. Vale de Cabrões), falc atas (6. Vale da Casa 6; 7. Vale da Casa 10) e espada (8. Vale da Casa 10). Desenhos F ernando Barbosa.
65 9 VACCEA ANUARIO as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa O bestiário As figuras animais dominam em termos de motivos, embora com um bestiário reduzi do, compos to sobre tu-do por ca valos, cervídeos e canídeos. É con tudo por ve zes difícil distinguir est as espécies, uma ve z que as figuras são ge -ralmente padron izadas e esquemátic as, sem grande elabor ação artístic a. Tr ata-se ger almente de figuras de animais com grandes orelhas, corpo comprid o e pa-t as pouc o desen volvidas.O ca valo surg e associado às fi-gur as humanas, mas também isolada-ment e, identific ando-se pela sua pos-tura e pela curv a da crineira e cauda comprida, embora muitas ve zes difícil de distinguir . Regr a ger al, o seu aspet o é bast ante distin to do atual, com pat as curtas, corpos compridos, ger almente sem crina, e com orelhas longas. Est e fact o ficar -se-á a dev er ao estilo de repr esentações, mas também às dife -renças físicas dest e animal em relaç ão à atualid ade, quando a seleção de raç as ainda não tinha produzido os ca valos de pat as long as, criados para o salto atr a-vés de trincheiras duran te a guerra. O ca valo não parece surgir dire tamente associado ao comba te, com a ev entual ex ceção da cena da Fo z do Côa 153, onde, ao lado de um ca valeiro com lança, surg e uma figura humana tomba-da. A monomaquia da Vermelh osa 3 é con tudo um caso parado xal, na qual um dos guerr eiros que luta a pé, com lança, tem os arreios de um ca valo presos à sua cou raça. Est a repr esentação torna eviden te a denotaç ão de pres tígio que o c avalo c onfere a quem se lhe associa.Os cervídeos são também figu-r as difíceis de iden tificar, com a ex ceção dos machos, que ost entam as suas evi -dentes hast es, ger almente repr esenta-das de forma não realis ta por ramif or-mes. as cor ças são mais difíceis de distinguir pois as suas orelhas longas e caudas curtas surg em também noutros animais. Assim, a forma mais segura para identific ação de fêmeas consis te na sua associaç ão a machos. O cão surg e em cenas de caç a auxiliando caç adores a ca valo. Est e animal surg e também associado a cer-vídeos sem caç ador. Os canídeos iden-tificam-se pela sua postur a, compor-t amento e pormenores morfológic os. No caso da postur a, salient am-se os canídeos deit ados com a cabeç a a olhar para trás, uma postur a rec onhecida, por ex emplo, na est ela de El Palao. Ao nível do comport amento, os dois pares de animais da rocha 19 de Vale de José Est eves, que se apresen tam colados pela zona post erior ligados por linhas, suger em um moment o pós-coit al, após o entumecimen to do bulbus glandis. Os Composições narrativas (1. Foz do Côa 153; 2. Vermelhosa 3; 3. Foz do Côa 177; 4. Bulha 38; 5. Quinta das Tulhas 6). Desenhos Fernando Barbosa.
66 9 VACCEA ANUARIO as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa dentes e as unhas desenv olvidas são outros pormenores que identific am os canídeos. Contudo , com a ex ceção dos casos onde uma clara int eração com a figura humana não podemos assegu-r ar se se tra tam ver dadeiramente de ca -nídeos doméstic os ou lobos. O fact o de alguns ter em cauda curta e outros com -prida poderá sugerir uma distinç ão en-tr e doméstic os e selvag ens, sendo que as caudas curtas surg em associadas a pelo menos uma cena de caç a. Est e fac -to poderá est ar relacionado com o fact o de os caç adores cort arem as caudas dos cães par a não a fugentarem a c aça. Exist e ainda um conjun to de ani-mais minoritários nos quais se int egram as duas av es e o peixe sob a monoma-quia da rocha 3 da Vermelhosa. Tr ata-se de duas av es necróf agas comendo um peixe. Todas as figuras se apre sentam com um pree nchimento re ticulado. No mesmo painel surg e uma segunda repr esentação de av e, nest e caso uma rapina, associada a um antr opomorfo com bic o de pássar o.Estas figuras têm paralelos na iconogr afia peninsular, desde os dia-demas de Mones, at é às est elas de El Palao e Binéf ar, passando pela pintur a vascular de Numância.Finalmen te, re fira-se a exis tên-cia de uma repr esentação de um jav ali, denunciado pelas presas, crina dorsal e rabo encar acolado, que encon tra para -lelos na iconogr afia pré-r omana penin-sular, como no punhal de Las Ruedas ou na lúnula de Chão de Lamas (Coimbr a).Por falt a de element os identi -ficadores ou de con texto elucidativ o, e pela rela tiva dificuldade na distinç ão das espécies repr esentadas, que vimos descre vendo, não será de estr anhar que grande parte do bestiário da arte da Ida-de do Ferr o est eja inserida no conjun to dos quadrúpedes indet erminados, mas que se dev erão enquadrar nas princi-pais espécies acima descrit as.Existe ainda um outro conjun to de figuras que não é passível de qual-quer definiç ão realis ta. Est a inde finição dev er-se-á tan to à inabilidade dos au-t ores, quan to ao fact o de se re ferirem a realid ades imaginárias, cujo con tex-to específic o desconhecemos. A rocha 18 do Vale de José Est eves é dist o um bom ex emplo. Por entr e canídeos e um ca valeiro, surg em figuras com grandes orelhas e aparen temente um focinho comprido , mas sobre tudo figuras espel-hadas, com duas cabeç as e quatr o pat as diant eiras ligadas por um mesmo corpo. Pela sua semelhança com outras figu-r as do mesmo painel int erpretamo-las como cães, num dos casos com a repr e-sentação do falo. Ainda no campo das repr esentações imaginárias, salien ta-se a figura de um quadrúpede com língua bífida e cauda comprida com “barba ta-nas” dorsais, que poderá corr esponder a um hipoc ampo. Outros signos Para além de um conjun to imen-so de traç os emaranhados difíceis de identific ar como ver dadeiros signos estrutur ados, as repr esentações figura -tivas da Idade do Ferr o do Vale do Côa coe xistem com um conjun to variado de signos. De entr e est es salient a-se um alfabe to greg o, repr esentado junt o da cena de caç a da rocha 23 do Vale da Casa (Gomes 2013). Tr ata-se da primei-r a evidência de escrita na região , embo-r a, pela sua natur eza de abecedário e Representações zoomórfic as: Cav alos (1. Vale de Cabrões 6; 2. Azenha 3; 3.Fo z do Côa 148), cervídeos (4. Moinhos de Cima 7; 5. Penasc osa 14; 6. Paç o), caní -deos (7. Vale de José Est eves 7; 8. Vale da Casa 23; 9. Azenha 3; 10. Vale de José Est eves 17), jav ali (11. Fo z do Côa 145), bovino (?) (12. Vale do Forno 6), av es (13 e 14. Vermelhosa 3) e indet erminados e “fan tásticos” (15. Fo z do Côa 181; 16. Vale de José Est eves 18; 17. Vale de Cabrões 11; 18. Vale de José Est eves 18). Desenhos F ernando Barbosa.
67 9 VACCEA ANUARIO as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa contexto int erior, seja ques tionável se o seu autor saberia ver dadeiramente ler o que r eproduziu.Segue-se um conjun to de moti-v os re tangulares com preenchimen to geomé trico, circular es preenchidos e meandriformes. Alguns dest es tipos re-pe tem-se em dif erentes painéis, como seja um motivo arboriforme com nervu -ra centr al presen te na Ribeira da Cabre -ira 3, que surg e sob a forma de cruz na Fo z do Côa 181. Est es padrões geomé -tricos surg em também associados à de-c oração do int erior de figuras animais, como sejam os ca valos, parcial ou int e-gralmente preenchidos por decor ações baseadas em padrões de linhas re tas ou onduladas. Regis te-se ainda a repr esen-tação de círculo s na espádua e na co xa. O mesmo acon tece com os cer vídeos, atr avés do pree nchimento por linhas re tas subparalelas ou por decor ações meandriformes. A ideologia guerreira expressa na arte rupestre Ainda em grande medida des-c onhecida, a arte da Idade do Ferr o do Vale do Côa apresen ta uma notá vel riquez a ao nível do suporte, número e iconogr afia, que merece um estudo aprofundado. Apesar das grandes se-melhanç as formais com a res tante ico -nografia pré-r omana da Península Ibéri-c a, ela af asta-se dela pelo suport e. Com rar as ex ceções nos vales do Guadiana e do Sabor, entr e outras, a esmag adora maioria das iconogr afias dest a época surg em sobre cerâmic a, ourivesaria e escultura. O fact o de ela surgir em suporte rochoso fixo (os painéis vertic ais de xis-to do Vale do Côa) con fere-lhe um uma relaç ão inex tricável com o con texto am-bien tal e geogr áfico em que se inscr eve, cons tituindo um ver dadeiro ex emplo de land art”, onde o espaço é também um dos meios da criação. Ela tes temunha uma cons trução social do espaço , uma domestic ação da natur eza pela arte, humanizando-a e con ferindo-lhe senti -do a través da ic onografia r epresentada.A loc alização dest a arte, ainda que con dicionada pelas condiç ões na-tur ais de formaç ão e preser vação dos painéis vertic ais de xist o, denota uma relaç ão pró xima com a água e a sua con fluência, sejam os rios Côa e Douro , sejam os inúmeros cursos de água sa-z onais, que lev am a água da superfície final da Meset a, a cerc a de 400 metr os acima do nível médio do mar, at é ao fundo dos vales dos rios, a cerc a de 110 metr os. Tr ata-se de uma arte frequen -temente narra tiva, onde os temas se vão repe tindo ao longo dos difer entes painéis e sítios. As suas repr esentações acentuam a temá tica da virilidade, evi -dente na repr esentação dos sex os dos humanos e animais ou nas hast es dos veados. Desconhecemos qualquer re-pr esentação humana que possa ser identific ada com o géner o fe minino, com a ex ceção de duas repr esentações de coit o post erior, que poderão con tu-do corr esponder a at os homosse xuais, uma ve z que as figuras penetr adas não ost entam qualquer atribut o fe minino. Também as figuras que ost entam vasos à cabeç a, que na etnogr afia portugue -sa corr esponde a uma prá tica fe minina, não apresen tam qualquer outro atribu-t o f eminino.As ações dest as figuras re forçam também est a noção de virilidade. Elas Outros signos (1. Foz do Côa 181; 2. Vale da Casa 23; 3. Quin ta das T ulhas 2; 4. Az enha 3; 5. Az enha 3; 6. Bulha 19; 7. F oz do Côa 92). Desenhos F ernando Barbosa.
68 9 VACCEA ANUARIO as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa surgem a ca valo, ost entando armas, a lutar em entr e si a e a caç arem. Es-t amos assim peran te um conjun to de repr esentações que heroiciz am da figu-r a do guerreir o, que surg e com as suas armas a c avalo.Existe uma relaç ão dire ta entr e a repr esentação de ca valeiros armados e a heroific ação de guerreir os mortos, aludindo à última viagem dest es. Essa relaç ão dev erá ter origem pelo menos na I Idade do Ferr o, como mostr a a es tela de Benaciat e (Silves). Os ca valeiros he-roific ados con tinuam at é ao século I a.C. por toda a Península, como o ex empli-ficam a pintur a e escultura ibéricas, as est elas de Baixo Arag ão e Cat alunha ou o diadema de Mones.T ambém a monomaquia é uma temá tica com larg a tradiç ão liter ária desde a Guerra de Tr oia (Ilíada 3, 86-94), à re solução do cerc o de Int ercatia, em pleno territ ório Vaceu (Apiano, His-tória de Roma, 6, 53), passando pelos funerais do pai e tio de Públio Cornélio Cipião, o Africano (Tito Lívio, Ab Urbe Condit a, 28, 21) ou de Viriat o (Apiano, Hist oria de Roma, 6, 75), o chef e dos Lusitanos. Ela pode ser ent endida como uma forma de evit ar o comba te gene -ralizado entr e dois ex ércitos ou pres tar homenagem aos chef es mortos. O rela -to de Tito Lívio re vela est as duas moti-v ações: homens livres, repr esentantes dos príncipes aliados, lutar am para hon-rar os seus gene rais mortos, mas tam -bém par a r esolver c onflitos penden tes.Esta prá tica ilustr a a aceitaç ão da morte pelo guerr eiro, a mais profunda e exig ente das responsabilidades huma-nas. Os guerr eiros comba tem olhando-se e ofer ecem a sua morte, enobr ecen-do-se. Eles troc am assim o prolong amen-to de uma vida con fortável, mas ef éme-ra, pela fama duradour a na memória dos mortais, a firmando que a fide lidade f ace ao chef e ultrapassa as fron teiras en tre a vida e a mort e (Olmos 1996). A morte propria mente dita é ra -ramente repr esentada na arte do Côa, mas julgamos iden tificá-la em algumas repr esentações com figuras deitadas, que surg em entr e guerreir os apeados ou face um ca valeiro com lança, numa cena com grandes semelhanças com a est ela de El P alao.Quando não comba te, o guerre iro caç a, a principal ocupação das elites du-ran te a paz. Ela pode ter também uma conot ação com a morte e o mundo in-ferior , nomeadament e a caç a ao veado , pela sua relaç ão com o deus céltico Cer-nunnos, r epresentado c om armaç ões.Ao seu lado traz o cão , que o acompanha na caç a, como nos con ta Xenof onte, e surg e igualment e como símbolo de pres tígio do nobre, guardan-do fielment e a sua casa (ver por ex em-plo a fidelidade de Arg os a Ulisses). O cão também pode ter uma associação ao outro mundo, acompanhand o o seu dono na morte (Ilíada, 23, 173-174), o que sucede com mais clare za com o lobo, associado ao deus céltico Sucellus, repr esentado, por ex emplo, na est ela de Zurita (Cant ábria), transport ando o dev orado nas suas entr anhas at é ao Ou-tr o Mundo , onde ir á r enascer. A repr esentação de av es necróf a-gas poderá aludir à prá tica de exposiç ão dos corpos dos caídos em comba te, ci-t ada por ex emplo por Sílio Itálic o (Pu -nica, 13, 470-471), a respeit o dos ibe-r os, cujos corpos seriam dev orados por um abutr e sinistr o, ou na passagem de Cláudio Eliano (De Natura Animalium, 10, 22), que atribui o mesmo destino aos guerreir os Vaceus mortos em com -bate. A relaç ão entr e av e e peixe figu-r a igualment e nos diademas de Mones int erpretados como a repr esentação do trânsit o aquátic o dos guerreir os para o Outro Mundo.Desc onhecido at é pouco , o jav ali faz agor a também parte do bes-tiário do Côa, no limite ocident al da sua principal área de distribuiç ão. Também o tour o parece surgir numa gra vura do Côa, est ando assim comple to o bes-tiário das principais repr esentações pe-ninsular es.Dos motivos analisados e da sua compar ação iconogr áfica com um vas to Cavaleiro com lança. Pormenor da Rocha 1 da Vermelhosa.
69 9 VACCEA ANUARIO conjunto da iconogr afia pré-r omana pe-ninsular , nomeadame nte os diademas de Mones (Marc o Simón 1994), bem como alguns motivos da pintur a vascu -lar ibéric a e numantina e das es telas do Ba ixo Arag ão, parece perceber -se uma mensagem, bem pat ente na rocha 3 da Ve rmelhosa. As repr esentações do Vale do Côa são a expr essão de uma ideolo -gia que visa a heroific ação da figura do guerreir o, atr avés da repr odução da mi-t ologia de orige m céltica na qual, após a sua morte, o guerreir o atr avessa as águas para o Outro Mundo, atingindo a imortalidade.A mensagem fala-nos da viage m do herói, a ca tábase, que consis te na sua descida aos inf ernos. As imagens assina- as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa Rocha 3 da Vermelhosa. Desenho Fernando Barbosa. As linhas de algumas figuras encon-tram-se mais espessas par a f acilitar a leitur a.
70 9 VACCEA ANUARIO as gravuras da Idade do Ferro no Vale do Côa lam o pont o de separaç ão e o es paço de encon tro entr e mortos e vivos, fixando a despe dida e o caminho. O suporte icono -gráfico repr esenta a fron teira e o encon tro de dois mundos, est e que conhe cemos e o Outr o Mundo , acessív el par a alguns. Nest a viagem o herói tem o au-xílio de um con junto de animais psic o-pompos (ca valo, canídeo , necróf agos, jav ali, hipocampo , et c.). O caminho de acesso ao Outro Mundo é atr avés das águas (Marc o Simón 1994), que, nest e caso , con fluem com o Douro e o Côa. Nest a última viagem, da qual alguns têm con hecimento pré vio, os guerrei -ros trans formam-se em pássaros, pelo que damos grande importância às figu-r as com bico de pássaro , que poderão con tudo ter uma cronologia específica, para impossív el de de terminar. A morte é ent endida como uma realidade simétric a da vida. Ela é um es-pelho e prolong amento dos usos e pri-vilégios das elites (Olmos 1996). Nest e sentido torna-se mais fácil compr een-der os animais espelhados da rocha 18 do Vale de José Est eves. Eles est ão entr e os dois mundos.A arte do Côa é assim uma arte de fron teira, que separa, mas também liga o mundo dos mortos e dos vivos. O fact o do Vale do Côa se situar preci -samente no limite ocident al da Meset a Ibérica, a maior unidade geomorf oló-gica da Península Ibérica, apont a para que est a arte est eja também localiz a-da numa fron teira entr e os vivos. Est a noção da arte como fron teira surg e re-f orçada pelo con texto de identific ação das cent enas placas com arte móv el, estilis ticamente semelhant es à arte do Côa, no int erior de um fosso do sítio do Cast elinho (San tos et al. 2012), que separa o int erior do ex terior da fortifi -cação.A arte da Idade do Ferr o do Vale do Côa parece assim ser a expr essão de um subs trato cultural pré-r omano, cuja int erpretação apenas intuímos. Sem a longa tradiç ão da inv estigação arqueo-lógic a na região Vaceia, falt a-nos ain-da um longo caminho para perc orrer na int erpretação dest a arte loc alizada nos con fins da mesma Meset a. Par a além do esboço int erpretativo que aqui apresen tamos ela con terá seguramen te outros níveis de leitura, e nov as desco -bertas virão segur amente con trariar ou acrescen tar o que aqui fica dito. Por ou-tro lado, o est ado atual de grande des-c onhecimento lev a-nos a não dis tinguir ainda as suas subtile zas crono lógicas, tra tando como um todo repr esentações de distin tas fases. De moment o, a atri -buição cronológ ica genéric a dest a arte baseia-se, em primeiro lugar , nos temas e suas formas de repr esentação, a par-tir de compar ações com a icon ografia expr essa na joalharia, escultura e pin-tura vascular da Península Ibérica, que apont am para os séculos III-II e I a.C. A identific ação da arte da Idade do Ferr o num dos fossos do sítio do Cast elinho, a cerc a de 10 quilóme tros a norte do Côa, foi precisamen te dat ada dos séculos II a I a.C. (Sant os et al. 2012), fornecendo uma boa re ferência cronológic a regio -nal. A identific ação das placas do Paç o e Olival dos Telhões em sítios com ocu-pação romana, apont a para que o seu fim seja duran te os alvor es da ocupação romana. Verific a-se alguma con tradição entr e a ideologia expr essa na arte ru-pes tre e os outros ves tígios arqueoló-gic os da ocupaç ão pré-r omana dest a região. Os ves tígios do Sabor apont am para comunidades essencialment e agrí -colas, atividade ausent e das re presen-tações artístic as. No ent anto, o fact o de, tan to no Cast elinho como em Cres te-los, os celeiros ter em sido fortific ados, conjug ado com a presenç a de algum equipament o militar (pont as, con tos de lança e falc atas), suger em uma socieda-de baseada na acumulação de recur sos e na sua distribuiç ão desigual. Talv ez tenha sido est e modelo económic o que tenha justific ado a necessidade de uma ideologia que afirma e perpetua o po-der, e xpressa na art e.Esta sociedade e a sua ment ali-dade irão desaparecer com a ocupação da Península Ibérica pelas tropas roma -nas, que est es guerreir os não consegui-r am tra var, divididos, mal org anizados e orgulhosos da sua morte. As mudanças radic ais nas sociedades indígenas, pro -vocadas pela inv asão dos ex ércitos ro -manos e consequen te pacificaç ão, irá pro vocar a aculturaç ão e o fim da ideo-logia guerreir a que deu origem à arte rupestr e do V ale do Côa. Bibliografia Gomes, M.V., 2013. 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